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Depois da tempestade Depois da tempestade
Reginaldo Benedito Dias Professor do Dep. de História da Universidade Estadual de Maringá No plano da experiência coletiva, a pandemia do coronavírus é o... Depois da tempestade

Reginaldo Benedito Dias
Professor do Dep. de História da Universidade Estadual de Maringá

No plano da experiência coletiva, a pandemia do coronavírus é o fato mais angustiante já vivido para grande parte da humanidade. Não vale, nesse caso, a comparação com os traumas da vida privada ou com vivências em guerras propriamente ditas.

Muitas pessoas procuraram extrair da angústia ensejada pela pandemia o consolo de que vivem um fato histórico de longo alcance, daqueles que merecerão a abordagem exclusiva de livros especializados ou de capítulos em obras mais amplas. Intuem que poderão, elas próprias, compor suas narrativas e transmiti-las aos pósteros, por via oral ou por outros mecanismos que a multiplicação das mídias permite.

Na tentativa de estabelecer um dimensionamento no calor da hora, não faltam aqueles que julgam que será um turning point em nossa história. Para alguns, nunca mais seremos os mesmos. Os mais otimistas julgam que sairemos melhores desta crise, mais interessados em questões que transcendem o cotidiano. Outros debatem se não seria o ocaso do nosso modelo societário.

Na atual crise sanitária, assim como em qualquer outro processo, é muito difícil fazer prognósticos. Os historiadores, como ensina uma anedota, são os profetas do passado. Mesmo assim, por vezes, o passado é bastante movediço, pois é escrutinado a partir de questões apresentadas pelo presente cambiante. Sim, o passado também pode ser modificado. Em outras palavras, não muda o que aconteceu, mas o que se sabe e como se interpreta o que aconteceu.

De qualquer modo, quando analisa processos remotos, o historiador tem a posição topográfica de quem olha o relevo (o passado) do cume da montanha. Ao interpretar a história que está ocorrendo, ele está na planície, na mesma posição que todos os demais agentes. O passado pode oferecer parâmetros, mas eles não são exatamente conclusivos, pois a história não se repete nem como tragédia nem como farsa.

A atual crise sanitária tem antecedentes históricos, mas também apresenta aspectos de ineditismo, característica da conexão global dos processos econômicos e sociais e da aceleração das tecnologias de transportes e das mídias de comunicação. Seja pela adoção das políticas de isolamento social, seja pela adoção de medidas públicas compensatórias, exerce um inequívoco impacto nos processos econômicos, cuja dimensão ainda não pode ser mensurada.

Em razão de sua abrangência internacional, a crise tem uma dimensão sistêmica, mas há as traduções do problema nos territórios nacionais, visto que os governos têm autonomia para adotar as terapias sanitárias e as medidas econômicas. Além disso, em um mesmo território nacional, há a autonomia dos governos regionais. Por isso, é difícil comparar a situação do Brasil com a de outros países. Na medida em que é uma crise internacional e sistêmica, é preciso partir da visão do todo e estudar as partes. Depois cabe voltar ao todo enriquecido pelo conhecimento das partes.

O impacto da crise deve ser apreciado em face da solidez ou da fragilidade estrutural das economias locais e nacionais. Com diferenças de incidência em cada casa do tabuleiro global, a crise também tende a impactar os processos políticos, tanto pelo fortalecimento da liderança de alguns dirigentes quanto pelo enfraquecimento de outros. No Brasil, por exemplo, a crise sanitária já invadiu o calendário das eleições municipais. Se o calendário for mantido, será uma eleição diferente, caracterizada por uma campanha desenvolvida quase exclusivamente por meios eletrônicos, em que os candidatos estarão sujeitos às flutuações da sensibilidade de eleitores pressionados pelas condições geradas durante a pandemia. Não se pode ignorar, qualquer que seja a posição de cada leitor, que ganha corpo na pauta política brasileira o debate sobre o impeachment do presidente da República. Há a hipótese de que a crise política será superada dentro dos marcos vigentes, mas também há o receio de evasão desses marcos.

Mas essas são, para usar o jargão dos historiadores, repercussões conjunturais. Haveria impactos estruturais, que venham a interferir em padrões societários mais enraizados? A pergunta não é ociosa. Cito dois exemplos mais amplos para comparação. No final das duas grandes guerras mundiais, houve profunda reformulação da geopolítica internacional, com desaparição de impérios, eclosão de revoluções etc. Seguindo o princípio de que só é possível comparar coisas comparáveis, as guerras são diferentes da crise da pandemia, mas oferecem alguns parâmetros, pois esses processos, cada qual da sua maneira, têm o potencial de exercer impacto desestabilizador da ordem econômica e política. Não se trata apenas de uma metáfora. Vivemos, em certa medida, uma guerra não convencional.

Seja como for, as novidades históricas não são explicadas pela crise, mas pela incidência da crise em dadas estruturas econômicas e políticas. Para que haja mudanças tão profundas, duas condições são necessárias: uma crise estrutural do sistema societário e agentes políticos capazes de liderar as transformações.

De um ponto de vista sistêmico, é perceptível que a combinação da crise sanitária com as crises econômicas e políticas é vivida de maneira diferente em escala internacional. Se há traços comparáveis, é possível constatar que muitos países preservam estabilidade política e sinalizam avanços no combate aos desafios apresentados. De modo que a instabilidade política e a crise econômica do nosso país guardam relação com a sua própria história.

Salvo melhor juízo, nos países capitalistas (a China é um caso à parte), o fim da pandemia tende a ocorrer com o debate entre as alternativas de gestão da sociedade tal como conhecemos, com as polarizações entre as variações do liberalismo e as diferentes traduções da socialdemocracia, com os riscos de soluções autoritárias que se coloquem como alternativa perigosa.

De todas as dimensões estruturais, a que muda mais lentamente é a da sensibilidade coletiva ou, em um nível mais profundo, a cultural. Mesmo quando as estruturas econômicas desmoronam, costumamos enxergar o que tem de ser reconstruído com o olhar educado pelo velho mundo no qual fomos educados. Daí vem, por exemplo, nosso conservadorismo diante de novidades tecnológicas que não cessam, mesmo quando elas, aparentemente, ofereçam benefícios ao nosso cotidiano.

A esse respeito, é preciso reconhecer que haverá uma aceleração dessas tecnologias em nosso cotidiano. A pandemia faz com que privilegiemos o comércio eletrônico, que sejam otimizadas formas de trabalho remoto (home office), que cogitemos da hipótese de usar tecnologia para aulas remotas. Até pouco tempo havia o questionamento da urna eletrônica e uma defesa, que considero extravagante, da volta do voto em cédula de papel. Ora, só podemos defender a manutenção do calendário eleitoral na crise da pandemia porque o Brasil desenvolveu a urna eletrônica. Quando a pandemia passar, o novo patamar de uso dessas tecnologias não vai ser resetado. É provável que haja um ponto de equilíbrio entre o uso anterior e o novo patamar, com a tendência de aceleração confirmada.

Um filósofo da antiguidade clássica, considerado precursor do pensamento dialético, dizia que o homem não se banha no mesmo rio duas vezes. Na segunda vez, ele e o rio não serão mais os mesmos. Há, claro, um excesso na fórmula. Poder-se-ia dizer que serão os mesmos, mas transformados pela dinâmica da realidade e da experiência.

Não é sensato dizer que seremos exatamente os mesmos depois da imersão no rio da pandemia. A convivência com o risco iminente da morte, o enfrentamento a um inimigo perigoso e não visível a olho nu, a experiência da perda de familiares e amigos, a visão desconcertante da morte em massa, o impedimento dos ritos de funeral, a disputa política em condições tão anômalas, a margem de incerteza que subsistirá, tudo isso tende a impactar nossa sensibilidade de maneira duradoura.

Pondero, no entanto, que a subjetivação não é – nem pode ser – a mesma para todos, como demonstram os embates que vivemos no momento. Vivemos a tempestade com percepções distintas dos riscos e das soluções, atando-nos a coletividades de identidade e de pertencimento. Não sei exatamente o que significa dizer que a pandemia criará pessoas melhores, como alguns vaticinam. Sem descartar que parte da população possa sofrer deslocamento de percepção da realidade e de convicções e que isso possa contribuir para mudanças conjunturais, parece-me mais provável que, no que diz respeito às percepções de mundo mais profundas, a crise acentuará as características de cada um de nós.

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